Quaresma: tempo de se exercitar de forma mais intensa na intimidade com Deus

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Paz e Bem.

Com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, a Igreja no mundo inteiro, inicia a Quaresma, tempo forte de conversão e penitência. As cinzas sagradas significam a intenção de morrer para o pecado e viver para Cristo. Recorda ainda que a humanidade é formada de pó e ao pó, um dia voltará. Milhares de fiéis participaram da Santa Missa, presidida pelo Guardião Frei Djalmo Fuck, na manhã desta quarta-feira, no Campinho do Convento.

Na homilia, Frei Djalmo recordou, inicialmente, que Deus é cheio de misericórdia. “Neste dia, juntamente com toda a Igreja, iniciamos a caminhada quaresmal com a Imposição das Cinzas. Este é o tempo favorável, é o tempo da salvação, tempo de graça, um tempo de misericórdia, como nos lembra São Paulo na Segunda Leitura (2 Coríntios 5,20-6,2). Hoje nós iniciamos esta caminhada, essa experiência de fé, onde experimentamos o quanto Deus nos ama, o quanto Deus nos quer bem. Nós não vamos ao encontro de um Deus punitivo, de um Deus castigador, de um Deus maligno. Vamos ao encontro de um Deus amoroso. Por isso, meus irmãos e irmãs, na Primeira Leitura (Joel 2,12-18) Joel lembra as características, os adjetivos, os predicativos de Deus. Ele diz que ‘Deus é benigno, é compassivo, Deus é paciente, é cheio de misericórida, inclinado a perdoar o castigo… Este é o Deus revelado por Jesus Cristo. Se alguém apresentar a nós uma outra imagem de Deus, essa não é a imagem de Jesus apresentou. Jesus apresentou a nós um Deus amoroso, misericordioso”, afirmou.

“Ao iniciarmos a Quaresma, não é apenas a oportunidade que temos de apresentar a Deus nossos pecados e falhas, é a oportunidade que Ele nos oferece de experimentar sua misericórdia. Esta é a grande oportunidade que Deus nos concede, de se permitir que Deus venha ao nosso encontro e nos abrace com amor, para permitir a nós, iniciar, uma vida nova”. Depois, o Guardião destacou os três exercícios quaresmais para uma “vida nova”, descritos no Evangelho de Mateus 6,1-6.16-18. “São três exercícios que nos permitem viver profundamente esse tempo da Quaresma. O jejum, a esmola e a oração. São três exercícios próprios do tempo da Quaresma, mas Jesus fala que eles só tem validade se houve discrição, nada deve ser feio para mostrarmos aos outros. ‘Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens só para serdes vistos por eles'”, recordou Frei Djalmo.

O primeiro exercício, o jejum. “Quando você jejuar, diz Jesus, que ninguém saiba que você está jejuando. Ele pede para tomarmos banho, colocarmos uma roupa bonita, um perfume, para que ninguém perceba que você está jejuando, com a cara triste, mas somente o Pai do Céu. E a gente se pergunta: do que eu devo jejuar? Hoje normalmente, a gente se abstem de comer carne no dia de hoje, é uma forma de jejum, mas não basta disso, não basta se reservar de comer carne, é preciso fazer jejum de muitas coisas, às vezes é preciso fazer um jejum da própria língua, dos pensamentos, daquilo que a gente diz, daquilo que a gente comenta, às vezes somos maldosos nas nossas falas, nos nossos comentários. Então cada um de nós precisa perceber onde o ‘calo aperta’ e ali fazer o seu jejum, discretamente”, explicou o frade.

O segundo, esmola. “A esmola, a capacidade de ser solidário com quem precisa da nossa ajuda, precisa do nosso auxílio, ser capaz de partilhar de forma solidária com quem, de fato, necessita do meu olhar, do meu amor. A gente não partilha apenas dinheiro. Partilhamos afeto, amor, ternura, um sorriso, um olhar que damos a alguém. ‘quando deres esmola, que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita, de modo que a tua esmola fique oculta. E o teu Pai, que vê o que está oculto, te dará a recompensa’, disse.

O terceiro exercício quaresmal é a oração. “Oração, intimidade com Deus. Jesus pede que essa oração seja feita no silêncio do quarto, onde só o Pai do Céu percebe que você está rezando. O tempo da Quaresma é este tempo de se exercitar numa forma mais intensa de oração, de intimidade com Deus. É o que Jesus também faz durante a Quaresma Dele, porque a Quaresma lembra os quarenta dias que Jesus passou no deserto, logo depois que ele foi batizado, foi conduzido para o deserto e ali foi tentado. Ele inicia seu momento de confronto com as coisas ruins e Ele sai vitorioso e inicia sua vida pública”, concluiu Frei Djalmo a explicação do Evangelho.

Por fim, Frei Djalmo ressaltou a importância da Campanha da Fraternidade para a Igreja no Brasil. “A nossa quaresma no Brasil é vivida de modo especial, porque existe uma forma. Junto com a Quaresma, temos a Campanha da Fraternidade que não pode ser esquecida. Há 60 anos, aqui no Brasil, vivemos a quaresma e junto a Campanha para lembrar-nos que a conversão é pessoal, mas também é comunitária, eclesial, social. Este ano o tema da Campanha da Fraternidade é: ‘Fraternidade e Amizade Social’ e lema ‘Vós sois todos irmãos e irmãs’ (Mt 23,8). Para nos lembrar que, embora somos diversos uns dos outros, somos de famílias diferentes, temos histórias diferentes, pertencemos a grupos diferentes, mas todos nós somos irmãos uns dos outros. ‘Fraternidade e Amizade Social’, portanto, somos convidados a viver a benquerença, o amor, o afeto, o respeito entre nós. Repito, nós somos diferentes, mas não somos inimigos uns dos outros, somos irmãos em torno do mesmo altar, então, Jesus nos permite, nos desafia a viver laços e fraternidade que vão além dos laços de sangue, que vão além dos grupos de amizade que a gente tem. É a capacidade de viver e experimentar uma convivência com aquele que é diferente. Que nós possamos viver esta Santa Quaresma, neste espírito e nesse sentido”, finalizou.

Após a reflexão, foi realizada a bênção das Cinzas Sagradas e em seguida, o rito de Imposição das Cinzas.

Mais tarde, às 15 horas, centenas de fiéis lotaram a Capela do Convento na tradicional “Missa da Saúde”. Frei Robson de Castro Guimarães, presidiu a Eucaristia. Na homilia, o frade destacou os exercícios quaresmais. “A liturgia de hoje nos prepara para, ao longo desses quarenta dias, vivenciarmos o maior acontecimento da história da humanidade. Na Primeira Leitura, Joel vai nos dizer a seu povo judeu e a nós, que temos que fazer penitência diante de Deus, pelos nossos pecados, ou seja, reconhecermos diante de Deus que a nossa passagem por essa existência, – que é um curto espaço de tempo que nos é oferecido -, temos que viver diante da presença do Senhor e que, porque Deus é a fonte, o princípio de tudo que existe, nós viemos Dele, estamos aqui por causa Dele e voltaremos um dia para a vida eterna, o convívio com Ele. Por isso, o exercício do jejum que é uma forma de se penitenciar diante de Deus”, explicou.

Frei Robson trouxe um exemplo de um dos primeiros seguidores de São Francisco, o irmão Leigo Frei Egídio de Assis. “Ele rezava agradecendo a Deus pelo dom da vida e pedia que o Senhor lhe mostrasse seus vícios e pecados. Deus logo mostra tudo que Ele nos dá, agora quando ele nos mostra nossos vícios e pecados, temos vergonha diante de Deus. Nos sentimos pequenos diante Dele e enxergamos a sua grandeza e experimentamos o quanto ele nos ama”, disse.

“A esmola deve ser acompanhada de um sentimento, a compaixão. Compaixão é um sentimento que nós temos para com as pessoas que sofrem. Não é pena e dó, porque isso só temos que ter para com os animais, as plantas, os outros seres. O ser humano é digno de compaixão. Como é que eu faço para ter compaixão? Simples, eu faço duas perguntas, uma dirigida a Deus ou outra a mim. Senhor como é que eu gostaria que me tratassem, se eu estivesse passando por essa situação? A segunda dirigida a si mesmo. Como é que eu gostaria que os outros que estão ao meu redor me tratassem se eu estivesse passando por essa situação? Então essas duas perguntas uma dirigida a Deus e a outra si mesmo, desperta rapidamente no nosso coração o sentimento de compaixão”, afirmou Frei Robson.

O Frade concluiu falando do terceiro exercício quaresmal, a oração íntima com Deus. “Depois Jesus vai usar também do exercício da Quaresma, a oração pessoal, que é indispensável. Jesus fala do quarto. O quarto é o símbolo do sagrado. Ali, a noite, quando a gente entra, fechamos a porta e somos aquilo que somos. No quarto, eu sou o que sou, ou seja, quando Jesus usa a expressão ‘hipócrita’, que é um termo grego para dizer ‘máscara’, é que ali dentro eu não uso mais a máscara, ali eu sou o que eu sou, ali eu não posso mentir para mim, não posso mentir para Deus. Ali, com toda a minha miséria, finitude, eu sou aquilo que eu sou, por isso que Jesus usa dessa dessa figura de linguagem extraordinária ‘entra no teu quarto e reza o Pai que está oculto, conta para Ele, conta com coração escancarado aquilo pelo qual você está vivendo”.

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