O quinto dia do Oitavário da Festa da Penha, celebrado nesta quinta-feira, 9 de abril, foi marcado por um convite direto à unidade, fraternidade, escuta e construção da paz. Com o tema “Onde houver discórdia, que eu leve a união”, a programação reuniu fiéis no Campinho do Convento da Penha em uma tarde de oração, reflexão, bênção das imagens de Nossa Senhora da Penha e Celebração Eucarística, além da visita da Penha Peregrina à Paróquia Santa Rita, no bairro Santa Rita, em Vila Velha, com o tema “Com a Virgem da Penha, junto aos irmãos que anseiam pela paz e pela concórdia”. À noite, a agenda cultural da festa também ganhou destaque com o concerto do Projeto Casa Verde, que emocionou o público no Convento.
A tarde começou em clima de acolhida e beleza, contando inclusive com imagens aéreas do Convento da Penha e a saudação aos devotos que acompanhavam presencialmente e também virtualmente. Frei Gabriel Dellandrea, guardião do Convento, abriu o momento com palavras de gratidão à equipe da decoração, responsável por deixar o Campinho e os espaços da festa preparados com cuidado, flores e sensibilidade para acolher os romeiros. Antes mesmo do início da Coroa Franciscana, ele convidou os presentes a resumirem a Festa da Penha em uma só palavra. As respostas vieram em sequência e em tom espontâneo: paz, gratidão, alegria e amor. O gesto revelou, já na abertura da tarde, o espírito que marca o Oitavário deste ano.

Em seguida, o Campinho foi tomado pela espiritualidade da Coroa Franciscana das Sete Alegrias de Nossa Senhora, conduzida por Frei Pedro de Oliveira, Frei Luiz Naldo e Dom Frei Luiz Flávio Cappio, bispo emérito da Diocese de Barra, na Bahia, que atualmente reside no Eremitério Frei Egídio, em Rodeio, Santa Catarina. A oração, profundamente ligada à tradição franciscana, preparou o coração dos fiéis para o momento devocional, quando a imagem de Nossa Senhora da Penha foi acolhida com cantos e vivas, enquanto caminhava em direção ao altar central.
MOMENTO DEVOCIONAL
No devocional, a assembleia foi convidada a rezar a partir da frase da oração atribuída a São Francisco de Assis: “Onde houver discórdia, que eu leve a união”. Frei Gabriel apresentou o tema do dia como uma resposta ao tempo presente e à necessidade de reconciliação entre pessoas, famílias e comunidades. “Maria foi aquela que uniu o céu e a terra, em seu ventre foi gerado aquele que se tornou o nosso ponto de encontro e de reconciliação. Por meio de Maria, começou o fim de toda discórdia e divisão”, foi anunciado na reflexão inicial, ressaltando que o nascimento do Salvador desperta nos cristãos o desejo de serem um só povo e uma só família.

A leitura do Evangelho, proclamado por Frei Jorge Lázaro, deu profundidade ao tema do dia. Ao meditar sobre a oração sacerdotal de Jesus, Frei Jorge destacou que o próprio Cristo pede ao Pai a unidade dos seus discípulos. “Pai, santifica-os na verdade. A tua palavra é a verdade. Como essas palavras de Jesus nos dão a certeza, a confiança de que como cristãos e devotos de Nossa Senhora da Penha, devemos levar a união onde há discórdia”, disse Frei Jorge, ao introduzir sua meditação.
Sua reflexão foi marcada por uma leitura muito concreta da realidade humana. Para ele, a discórdia nasce de corações separados e pode atravessar famílias, relações de vizinhança, comunidades e até ambientes religiosos. “Discordar é romper, é separar o coração”, explicou, lembrando que o coração é o lugar de onde brotam os sentimentos e onde também se constroem os vínculos mais profundos. Em sua fala, destacou que famílias em discórdia, corações feridos e relacionamentos rompidos revelam a necessidade urgente de uma paz que brota do Evangelho. “Jesus nos pede a unidade. A união que brota de um coração arraigado no Evangelho”, afirmou.
Frei Jorge também fez uma dura crítica às divisões alimentadas por questões econômicas, políticas e até religiosas. Em sua leitura pastoral, a discórdia aparece no cotidiano e exige vigilância espiritual. “Não são poucos os lugares onde a discórdia parece prevalecer sobre a união”, disse. Para ele, não basta desejar a paz de modo abstrato. É preciso cultivar os mesmos sentimentos de Cristo, como ensina São Paulo, e rezar pelo bem do outro, não pelo mal. “Rezar pelo mal do outro não é ter os mesmos sentimentos de Cristo. Rezar pelo bem do outro, sim”, afirmou com firmeza.
Ao longo da reflexão, Frei Jorge apresentou Nossa Senhora e São Francisco como exemplos luminosos de união com Deus e com os irmãos. Segundo ele, ambos viveram com um coração tão enraizado no Senhor que a discórdia não fazia parte de suas vidas. No encerramento da meditação, convidou os fiéis a saírem do Convento com o coração aliviado das discórdias e comprometidos com a paz. “Se discórdia é coração separado, concórdia é um coração unido”, resumiu.

Um dos momentos mais significativos da tarde foi a bênção das imagens de Nossa Senhora da Penha. Os fiéis ergueram quadros, capelinhas, terços e diversos objetos de devoção, confiando à intercessão da Mãe das Alegrias suas intenções e a vida de suas famílias. Entre elas uma imagem confeccionada pelas internas do presídio feminino de Bubu e a imagem da identidade visual da Festa da Penha, ambas apresentadas pelos frades como sinais de devoção, memória e esperança.
A bênção, transformou o Campinho em um grande espaço de fé, onde cada imagem apresentada recordava a presença materna de Maria no cotidiano dos devotos. Na oração, os frades pediram que, ao contemplarem a Virgem da Penha, os fiéis fossem fortalecidos na esperança, na fé e no compromisso com a paz, recebendo graças de proteção, unidade e perseverança na vida cristã.
BEM-AVENTURADOS OS QUE PROMOVEM A PAZ
A Santa Missa foi celebrada pela área pastoral Serra/Fundão, com presidência do padre Jacob Mariano Pimentel Firme, da Paróquia Sagrados Corações de Jesus e de Maria, e homilia do padre Reinaldo Vítor Sátiro, da Paróquia São José de Anchieta. O comentário inicial da celebração já situou a assembleia no centro da festa, recordando que o Oitavário vivia sua metade e que, ao olhar para trás, os fiéis podiam reconhecer o que Deus já havia realizado, enquanto, ao olhar para frente, renovavam a esperança no que ainda viria.
Na homilia, padre Reinaldo iniciou sua exortação relacionando o tema do dia com as bem-aventuranças de Jesus, especialmente a que proclama: “Bem-aventurados os que promovem a paz”. Ao lembrar que a discórdia é um grande mal, o sacerdote destacou que a promoção da paz deve começar pela verdade e pela proximidade com Cristo Ressuscitado. “O dom da paz vem de Cristo, do Ressuscitado”, afirmou, insistindo que os cristãos são chamados a ser instrumentos de paz em todos os ambientes em que vivem.

O presbítero também chamou atenção para as discórdias mais próximas, aquelas que atingem famílias, paróquias, grupos de convivência e o interior de cada pessoa. “Existem discórdias e intrigas bem mais perto de nós: em nossas paróquias, em nossas famílias e em nosso coração”, lembrou. A partir disso, reforçou que a paz não é apenas uma ideia, mas uma prática concreta. “Se podemos fazer algo, então tal postura torna-se pouco”, disse, ao observar que, quando há possibilidade de agir para reconciliar, não basta apenas rezar e esperar.
E indicando um modo de proceder claro e evidente, o presbítero fez um convite a dois públicos: primeiro aos sacerdotes e depois, aos mesmos, mas estendendo a todos os fiéis. Aos seus companheiros de missão exortou que a promoção da paz atinge o seu máximo no Sacramento da Reconciliação. Ele argumentou sua indicação recordando que ao final da fórmula de absolvição o presbítero sempre diz ao fiel: “para remissão dos pecados, [Deus] te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz”. Esta paz, afirmou o sacerdote, “é a de Cristo Ressuscitado, a paz da consciência de estar plenamente reconciliado com Deus”. Por fim, ele também dirigiu uma reflexão a todos os fiéis: que na meditação do oitavo mandamento da Lei de Deus, reforcem o desejo de “evitar todo tipo de mentira, todo tipo de juízo temerário, todo tipo de fofoca, todo tipo de calúnia”, amando “a verdade, priorizando a verdade em nossos diálogos, em nossas relações fraternas”. E indagou: “quantas guerras, desavenças e discussões teriam sido evitadas se vivêssemos esse ponto fundamental de nossa fé?”. Para tal, propôs ações simples e concretas, tais como: desconfiar dos boatos que ouvimos e não transmiti-los às pessoas e aprender a olhar mais e falar mais das qualidades das pessoas e não dos defeitos. Ao final, pediu a intercessão de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora para que todos os fiéis sejam instrumentos de paz.

A programação da manhã foi marcada por mais uma visita da Penha Peregrina, desta vez na Paróquia Santa Rita, em Vila Velha, com o tema “Com a Virgem da Penha, junto aos irmãos que anseiam pela paz e pela concórdia”. O momento ganhou forte simbolismo quando Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Vitória (ES), ao lado da imagem de Nossa Senhora da Penha, colocou um pequeno banco ao seu lado e convidou os presentes a imaginar uma conversa com a Mãe das Alegrias. “Quem nunca sonhou em colocar um banquinho do lado da imagem de Nossa Senhora da Penha no Convento da Penha e poder conversar com ela?”, disse, propondo uma relação de proximidade e confiança.
Em sua, o bispo recordou a experiência de sentar-se ao lado da própria mãe para conversar e ouvir conselhos, comparando esse gesto à escuta espiritual diante de Maria. “O que uma mãe ensina fica escrito no coração, a gente nunca mais esquece”, afirmou. Em seguida, destacou a imagem de Nossa Senhora da Penha com o Filho nos braços e lembrou que esse Filho está “com o mundo em suas mãos”, porque é Ele quem mostra “a verdade, a vida, o caminho”. Dom Andherson também falou com sensibilidade sobre a realidade difícil da comunidade, marcada por medo e violência, e apontou a necessidade de construção da paz e da concórdia. “Nós queremos construir aqui a paz, a concórdia, para que todos possamos ter a segurança, a liberdade de ir e vir”, afirmou.
CONCERTO DO PROJETO CASA VERDE EMOCIONA PÚBLICO NO CONVENTO DA PENHA
O concerto promovido pelo Projeto Casa Verde integrou a programação cultural da Festa da Penha e foi realizado na noite deste dia 9 de abril, às 19h, no Campinho do Convento da Penha, em Vila Velha. A apresentação reuniu fiéis e visitantes em um momento que uniu fé e arte, destacando a música como instrumento de espiritualidade e expressão cultural dentro das festividades.
Conduzido pela orquestra de câmara do Projeto Casa Verde, o concerto marcou o encerramento de um projeto especial de circulação musical, com repertório sacro e obras clássicas de grande relevância histórica. Sob a regência do maestro Delins Freitas, a noite evidenciou não apenas a qualidade artística dos músicos, mas também o impacto social da iniciativa, que há cerca de duas décadas promove a formação musical de crianças e jovens, com orquestras que vão do nível infantil à formação de câmara.

O repertório apresentado percorreu diferentes períodos e estilos da música erudita. Na primeira parte, o público acompanhou obras como a “Ave Maria”, na versão consagrada de Johann Sebastian Bach em parceria com Charles Gounod, além da ária “Lascia ch’io pianga”, de Georg Friedrich Händel. Também foi interpretada a obra “Ressurreição”, do compositor brasileiro Francisco Mário, destacando a presença da música nacional no programa.
Já na segunda parte, o concerto trouxe peças de forte caráter sacro e sinfônico, como o “Lacrimosa”, do Réquiem de Wolfgang Amadeus Mozart, além de trechos das Bachianas Brasileiras nº 4 e nº 5, de Heitor Villa-Lobos, que dialogam entre a tradição clássica e elementos da música brasileira. O público também apreciou a “Abertura em Ré”, do padre e compositor José Maurício Nunes Garcia, e a Sonata a Cinque, de Tommaso Albinoni, além da obra “Mourão”, de César Guerra-Peixe, considerada uma das expressões marcantes do nacionalismo musical.
A apresentação contou ainda com a participação da soprano Sara Toneto, que interpretou peças de grande expressividade, contribuindo para a atmosfera orante e contemplativa da noite. Ao final, o concerto foi ovacionado pelos presentes e reconhecido como um dos momentos culturais mais significativos da festa, reforçando a proposta da Festa da Penha 2026 de unir evangelização, arte e cultura, em sintonia com o tema “Fazei de nós instrumentos da paz”.
A Festa da Penha 2026 é promovida pela Mitra Arquidiocesana de Vitória, Convento da Penha e Associação das Obras Franciscanas. A Festa é realizada com recursos da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), por meio da Secretaria da Cultura (Secult), e do Governo do Espírito Santo, através do patrocínio da ES Gás. A correalização é do Espírito Santo Convention Bureau e da Prefeitura Municipal de Vila Velha. O evento conta com o patrocínio da ArcelorMittal, Banestes, Cesan, Extrabom, Javé Construtora, LeCard e Vale. Também tem o copatrocínio da Unimed Vitória. O apoio é da TVE, TV Gazeta, A Gazeta e Café 3 Corações. O apoio cultural é do Grupo Energisa.
Equipe de Comunicação da Festa da Penha: Frei Augusto Luiz Gabriel, Frei Roger Strapazzon e Marcos Souza (Grupo Celinauta) – Fotos da visita da Imagem Peregrina à Paróquia Santa Rita de Cássia: Amarildo Moulin


























































