Entrevista Frei César Külkamp: “Qual é a nossa identidade de Frades Menores?”

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De passagem pelo Brasil, antes de participar da reunião dos Ministros Provinciais e Custódios da Conferência Franciscana do Brasil e Cone Sul, nesta semana, na Província São Francisco Solano, o Definidor geral Frei César Külkamp falou, nesta entrevista ao site Franciscanos, como é feito o trabalho de animação e acompanhamento na Ordem dos Frades Menores.

 Frei César foi eleito Definidor geral no dia 15 de julho de 2021, quando era Ministro provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição, eleito em 2018. Também era presidente da Conferência do Brasil e do Cone Sul dos Frades Menores.

 Acompanhe a entrevista!

Site Franciscanos – Passados dois anos desde a sua eleição para Definidor geral (julho de 2021), como o sr. vê esse trabalho na Ordem dos Frades Menores?

 Frei César – Esse trabalho é bastante rico em termos de conhecimento e de participação na vida da Ordem. No entanto, ele traz desafios para o tempo em que estamos vivendo. Cada região e cultura, cada fenômeno mundial, em distintos períodos traz as suas provocações. Se fala muito que vivemos em um mundo com mudanças muito rápidas e isso traz muitas implicações para a vida da Igreja e para a vida franciscana. Então, o nosso trabalho também precisa passar por uma, digamos, ressignificação. Estamos trabalhando numa comissão, da qual eu faço parte, de revisão da estrutura das Conferências, o que é um aspecto de todo o serviço de animação da Ordem. A Ordem já fez conselhos temáticos de como deveria ser a animação, como o CPO da Polônia. Existem possibilidades diferentes em outras congregações. Mas a Ordem tem um longo caminho e situações próprias, autonomias, e hoje cada vez mais é chamada a uma colaboração ampla entre as entidades, que se unem e formam uma nova instituição. Algumas buscam um caminho de colaboração na formação ou na missão. São caminhos diferentes que vão surgindo. Aqui na América Latina, por exemplo, temos a UCLAF (União de Conferências Franciscanas da AL) com muitas demandas e também muitas transformações de época e de cultura. A pergunta é se a desde a Cúria Geral, num modelo mais centralizado de animação se consegue dar as devidas respostas. Eu vejo que não estamos conseguindo atender todas as situações necessárias. Por isso, estamos buscando maior colaboração entre as entidades da Ordem nos processos, principalmente de acompanhamento, animação e conhecimento de cada uma das entidades. É um grande desafio que temos e somos provocados hoje pela Igreja a um pensar um processo sinodal de animação e acompanhamento da Ordem. O mesmo deve acontecer com os Ministros, Definitórios e outros organismos de cada entidade.

Site Franciscanos – Por favor, poderia detalhar como é formado o Governo geral e o seu Definitório? 

Frei César – A Ordem está presente hoje em 120 países, com um total de 91 Províncias/Custódias. Cada entidade tem sua autonomia e seu próprio governo. O Governo geral acompanha o processo capitular e de eleição dos governos através de um Visitador geral, eleito pelo Definitório geral. Quando eleito e empossado, o governo de cada Província tem sua autonomia conforme a legislação da Ordem dos Frades Menores. Mas o Governo geral continua como última instância, e procuramos, mais do que tudo, fazer um acompanhamento através do Definidor referente para cada região ou Conferência. O Governo geral é eleito pelo Capítulo geral para um período de seis anos, tendo o Ministro, o Vigário e oito Definidores conforme as regiões. A América Latina tem dois Definidores e três Conferências (antes eram quatro). Frei Joaquín Echeverry é referência para a Conferência Guadalupana, que são as entidades do México e América Central (seis entidades) e eu para as outras duas Conferências: a Bolivariana e a do Brasil e Cone sul, num total de 19 entidades no território da América do Sul.

Contudo, somos Definidores para toda a Ordem. E o Ministro geral insiste nesse ponto, que é da própria legislação. Então, temos que conhecer e acompanhar todas as entidades, mas sempre com atenção especial para uma região, procurando participar dos encontros dos ministros, das assembleias das Conferências, dos serviços específicos para a formação, evangelização e missão e para o JPIC. Cada Conferência tem os seus delegados para isso. Nesta região que faço referência, as duas Conferências têm também os Vicariatos. A propósito, a maioria dos Vicariatos da Ordem está na América do Sul. O nosso papel não é o de entrar e interferir nas Províncias. Fazemos algumas atividades conforme as solicitações, seja com grupos específicos, como professos temporários, frades Under ten ou formadores ou ainda da Missão e Evangelização. Mas o nosso acompanhamento se dá, sobretudo, a partir do Ministro de cada entidade e naquilo que ele precisa através da intermediação da Ordem, que tem vários escritórios na Cúria geral. Três principais escritórios são muitos ligados às Conferências: Evangelização e Missão, Formação e Estudos e JPIC. E depois há os que cuidam da parte jurídica, do Economato, da Comunicação, da assistência às Clarissas e Concepcionistas, da Causa dos Santos e assim por diante. Além disso, a Secretaria geral e o setor de Protocolos faz o intercâmbio do Definitório geral com as entidades e lida com muitos documentos relacionados ao jurídico e aos Dicastérios da Igreja.

Esse trabalho é feito ajudando o Ministro, sobretudo na tarefa de animação e acompanhamento dessas entidades. Como já falei antes, é competência também do Governo geral a eleição de Visitadores, que representam o Ministro geral a estar próximo de cada irmão, de cada fraternidade e das presenças evangelizadoras. A partir desse trabalho, que compreende a parte sucessiva aos Capítulo, do pós-Capítulos, é feito um relato ao Governo geral e isso é apresentado ao Definitório pelo Definidor da região. Em alguns casos específicos, por indicações de um visitador, se faz um acompanhamento mais intensivo a uma entidade durante um triênio ou por um período conforme uma necessidade. E com as visitas mais frequentes, vamos acompanhando e intermediando com o Ministro geral e os Ministro provinciais. Hoje, com as reuniões virtuais, isso tem acontecido com frequência e também os serviços estão mais ligados entre si. Cada Conferência tem um presidente com suas competências e, junto com o Definidor, trabalha na articulação e na mútua colaboração das entidades de uma Conferência. E com as nossas três Conferências formamos a UCLAF, que é a União das Conferências Franciscanas da América Latina. A cada dois anos temos assembleias e a cada quatro, a assembleia eletiva, como foi a última realizada em São Paulo. Com os Definidores de cada região, esses três presidentes são chamados e temos encontros na Cúria geral para alguns encaminhamentos e decisões para a Ordem toda. É uma espécie de Definitório ampliado.

Site franciscanos – É uma “teia” que funciona bem e que o sr. já conhecia, não? 

Frei César – Sim, apesar das dificuldades sobretudo de tempo, funciona bem. Para mim é um mundo novo de conhecimento. Eu tive experiência aqui, no âmbito da própria Província, de trabalhos diversos e serviços de animação, como Secretário de Evangelização e de Formação, como Definidor, Vigário e Ministro Provincial. Na Conferência, fui animador da Evangelização e da Formação e presidente. Isso dá um conhecimento local. A provocação que vejo é a de ampliar os horizontes das realidades próprias para os nossos desafios como Ordem. Ter a consciência de que professamos na Ordem dos Frades Menores. Para mim, tem sido um tempo de grande aprendizado, tanto na parte dos idiomas oficiais da Ordem como das distintas realidades. Como Governo geral, assumimos nas prioridades de animação ter um encontro com cada Conferência da Ordem. Já estivemos com a Conferência do Brasil e Cone Sul e com a Conferência Sul-Eslava. Estivemos com a União de Conferências da América Latina (UCLAF) e a da Europa. Nas reuniões do Definitório geral, cada Definidor de referência traz as questões das suas regiões para discussão e para receber as indicações de todos os Definidores, o Governo geral.

Site Franciscanos – O sr. viaja muito também com o Ministro geral e o Definitório? Como é conhecer toda essa diversidade de culturas onde está presente a Ordem dos Frades Menores?

Frei César – Eu viajo com o Ministro geral, sobretudo quando faz visitas nesta região. São ocasiões de conhecimento das atividades. A ele interessa muito encontrar os irmãos e conversar com os diferentes grupos da entidade. Esses diversos encontros são uma prioridade, mas também se visita a Família Franciscana, sobretudo quando tem Clarissas e Concepcionistas, fraternidades da OFS, religiosas Franciscanas e as juventudes franciscanas. Como Definitório, viajamos para encontrar as Conferências, como já falei antes. E ainda como Definitório, temos encontros próprios: retiros espirituais anuais, algum dia de reflexão, avaliação e aprofundamento, encontros celebrativos, como a abertura dos Centenários, e fazemos alguma formação. Quando completamos o primeiro e o segundo ano, fizemos um tempo forte de revisão da caminhada em busca de novas indicações, com a ajuda de uma pessoa especializada. Recentemente, fizemos cursos de liderança em estilo sinodal com a Universidade Gregoriana. São belas oportunidades de crescimento como equipe.

Site Franciscanos – O que mais impressiona o sr. nesse universo da Ordem? 

Frei César – É muito interessante quando se fala que somos uma diversidade de realidades e culturas. Na Cúria Geral somos 40 frades que trabalhamos nos vários escritórios e no serviço de governo. Somos frades de todos os Continentes e é uma riqueza grande. O elemento que dá unidade é o próprio carisma, a fé cristã, o modelo de formação com princípios comuns a partir da Ratio Formationis Franciscanae e as grandes questões de toda a Ordem. Então não é difícil formar uma fraternidade nesse ambiente de diversidade, buscando valorizar o que cada um traz do seu mundo. Temos momentos formativos, capítulos, encontros diversos, leitura orante da Palavra e a vida cotidiana de oração e convivência. Estar juntos em fraternidade, a meu ver, é muito enriquecedor para a gente mesmo. Por onde vou passando, além daquilo que nos chama a atenção, que são peculiaridades de cada lugar, iniciativas diferentes de evangelização e formas de vivência, de fazer formação, vejo esse espírito que nos dá unidade. Isso me impressiona sempre. Acho que é o que mais me impressiona nesse universo, bastante plural e diversificado, a unidade ou fraternidade universal.

É claro que existem sensibilidades diferentes para cada tema, mas procuramos nos esforçar como Governo geral, ao conhecer cada lugar, em se adaptar e entrar nas dinâmicas do lugar, o que é muito importante. Então, diria assim: estar no governo geral é um grande aprendizado, pois é ampliação dos próprios horizontes. Você leva consigo a sua cultura, as experiências vividas, mas se abre para conhecer e aprender. É um exercício de contemplação das realidades. Não falar muito e ser capaz de ouvir. O Ministro geral usa muito essa dinâmica: primeiro escutar os frades, ouvir os relatos da entidade e seus desafios atuais, e, a partir disso, ele fala em diferentes momentos, de forma bastante dialogada. Isso é bem interessante e envolve muito mais os frades.

Site Franciscanos – Quais os grandes temas na pauta da Ordem hoje? A interprovincialidade, as novas formas de evangelização e missão, a superação do clericalismo, a tutela de menores e vulneráveis, o crescimento na Ásia e na África são alguns deles… 

Frei César – Os temas são bastante grandes. Logo que começamos o período como Definitório geral, elaboramos as Diretrizes a partir do documento conclusivo do Capítulo. O Capítulo geral deu a inspiração e mais de 30 mandatos e orientações do que se deve fazer neste período. Nós não somos eleitos para formar um grupo que vai fazer o seu plano de governo. No Capítulo se constrói um programa, votam-se as decisões e, no final, então se elegem as pessoas que vão animar a Ordem na direção dada pelos irmãos. Então, com o documento final do Capítulo e escutando os antigos Definidores – fizemos um tempo de encontro com eles -, fomos orientando o nosso trabalho, mas de forma dinâmica. Muita coisa vai acontecendo no mundo, na Igreja e na própria Ordem. São novos cenários com novos desafios. Por isso também é importante ter organismos mais amplos e mais participativos de animação.

Já no Capítulo veio com força a questão da sinodalidade, um tema de toda a Igreja. A partir das indicações vamos pensando a animação da Ordem de forma mais sinodal, com mais participação e comunhão. Valorizamos mais os conselhos, os encontros dos presidentes de Conferências, os encontros com novos ministros, com os visitadores que vão às entidades, os conselhos gerais de formação, de evangelização e do JPIC. São momentos de partilha e de ajuda para os encaminhamentos necessários. E destaco também as visitas às Conferências, não só para levar a elas uma mensagem, mas como uma chamada à colaboração, ouvindo questionamentos e indicações dos irmãos. Isto internamente, mas a Igreja também nos provoca à abertura aos leigos e a outras expressões de vida religiosa. Hoje temos Conselhos da Ordem que já contam com a presença de leigos. Estamos preparando o Capítulo das Esteiras (2025), e que já começou nas entidades e conferências, para ser um momento de integração, frades e leigos, que virão de cada região. Há números estipulados na proporção de participantes – frades e outros religiosos/as e leigos das nossas presenças. O objetivo é o da corresponsabilização de todos no serviço de animação.

Também se fala muito da interprovincialidade. Nós somos uma Ordem de entidades, províncias e custódias, bastante autônomas em si. Já aconteceram processos de integração, na fusão de entidades. As Províncias do Norte da Itália formaram uma só Província, assim como a Espanha e a Alemanha, e agora, no próximo mês, seis entidades nos Estados Unidos, que já têm o governo eleito. Em outros lugares se busca esse caminho de uma integração maior, de perceber o que e onde é mais importante ter presença. Neste sentido, vindo para a nossa realidade de Brasil, a Amazônia tem hoje uma importância muito grande para o mundo e para Igreja, até tivemos o Sínodo da Amazônia. É um lugar que deveríamos reforçar a presença. Poderíamos começar conhecendo mais deste enorme universo e das iniciativas que já existem em torno das grandes temáticas, como a preservação, os povos originários e o desenvolvimento sustentável da região. É preciso abrir-se a outras congregações e aos movimentos organizados da sociedade. É mais até do que a interprovincialidade. Significa abrir-se ao trabalho com os grupos que existem de Igreja, como a REPAM, o CIMI, os movimentos indigenistas e de defesa da Amazônia. São muitas possibilidades. Poderíamos também pensar nos outros lugares, como o Pantanal – outro bioma importante, o Santuário de Canindé com sua relevância enquanto santuário genuinamente franciscano no Brasil, entre outros. Existem iniciativas de comunicação, de trabalho social, de educação e o grande universos das paróquias e conventos que poderiam atuar mais em rede.

A Ordem retomou o documento “Ite, nuntiate” na intenção de pensar e fortalecer novas formas de presença e de evangelização para além das já tradicionais. A Europa tem conventos seculares, mas que atualmente não respondem tanto às necessidades de evangelização e de presença no mundo europeu. Perderam a força de atração e, em alguns lugares, vivem a chamada pastoral de manutenção. O ex-Ministro geral, Frei Giácomo Bini, provocou para um novo estilo de vida, com mais itinerância e proximidade das pessoas, das realidades de sofrimento, lugares de fratura social. O nosso atual Ministro geral participou de uma destas experiências numa região em que os terremotos causaram mortes e destruição. Eram fraternidades móveis e mais próximas das pessoas. Existem diversas experiências na Europa e se quer valorizar e dar mais legitimidade ao que vivem. Na América Latina temos fraternidades com estas características, em periferias, em áreas ligadas à questão da terra, do meio ambiente, do trabalho e dos mais pobres. O Ministro geral costuma afirmar que não se trata de novas experiências, mas reassumir aquilo que São Francisco mesmo viveu e tantos irmãos da Ordem ao longo de sua história. Importante que não sejam projetos personalistas, mas integrados na própria entidade, com uma fraternidade que vive o próprio da vida religiosa, oferecendo essa presença e proximidade às pessoas e realidades.

Um tema forte e ligado com os anteriores é o da identidade. Qual é a nossa identidade de Frades Menores? Falamos que somos uma fraternidade-contemplativa-em-missão como a identidade mais profunda. Foi um indicativo forte do Capítulo geral e, após o Capítulo, quando nos encontramos com o Papa, ele insistiu que a identidade como fraternidade fosse forte. Ele falou muito da Amazônia, em vários momentos do encontro. E sobre a nossa identidade de irmãos, de leigos. Devemos ser uma Ordem leiga, onde alguns podem abraçar os serviços ministeriais, mas sem perder a identidade originalmente leiga da Ordem. Este é um tema da máxima importância e um grande desafio em tempos de novos clericalismos.

As Conferências e Províncias foram chamadas a fazerem encontros de reflexão com os irmãos leigos e teremos um encontro maior em âmbito de Ordem. Mas a provocação é que o tema seja discutido com todos os irmãos, clérigos e leigos, para que cresçamos na consciência da nossa identidade de irmãos. O que dá sentido à nossa vocação é a vida religiosa franciscana, e servindo na Igreja nos seus tantos ministérios. Ligado a isso está a discussão sobre a formação: como formar, seja nos programas iniciais ou permanentes, para essa identidade.

Pouco tempo depois que estivemos com o Papa, a Igreja fez o “Rescrito” que permite a irmãos leigos exercer o serviço de Ministro provincial ou geral. No encontro, ele já insistiu que deveríamos apresentar nomes de irmãos leigos para ministros provinciais e custódios. Pediu que, como Ordem com esta identidade, déssemos um passo a mais. Foi uma provocação para o Governo. Com o “Rescrito”, oferecendo essa possibilidade, a questão da identidade ganhou um novo impulso nas discussões. A busca é a superação do clericalismo e de toda forma de exercer poderes que diferenciem as pessoas, criem categorias.

O Capítulo pediu, como prioridade, o trabalho pela “proteção de menores e de pessoas vulneráveis”. Um amplo esforço para, como pede a Igreja, fazer de todos os nossos ambientes lugares seguros e saudáveis para crianças e para todas as pessoas, evitando todo tipo de abuso. Foi criada uma comissão e instituído um escritório que acompanha e orienta as entidades. Foi lançado um guia para toda a Ordem e cada entidade deve elaborar um protocolo de ações que garanta tudo isso e promova mais consciência nesse aspecto. Os abusos podem ser de poder, sexual, de autoridade e até espiritual.

São temas entre tantos outros, principalmente esse de revisão contínua da forma de animação da Ordem, um tema presente nos nossos diversos encontros. E depois, sempre a atualização da Ordem. Pensar a Ordem hoje com as realidades locais e a realidade mais universal. Principalmente como conseguir criar um envolvimento maior, com uma linguagem, um tipo de formação e de trabalhos adaptados ao nosso tempo, como uma resposta carismática no nosso tempo e que encante as novas gerações. Nessa temática entram as regiões onde acontece uma diminuição e envelhecimento da Ordem e outras com crescimento. Trata-se de buscar o equilíbrio acompanhando tudo isso.

Site Franciscanos – Hoje, conhecendo bem a Ordem, como o sr. avalia os problemas e as conquistas da Ordem? 

Frei César – A Ordem tem um caminho que foi se construindo. É uma Ordem grande. Diminuiu, mas é ainda grande em âmbito de Igreja, com presença em todos os Continentes, em 120 países e trabalhos belíssimos em cada lugar. Há dificuldades ou desafios em cada lugar, mas se busca criar um espírito mais de fraternidade nas presenças evangelizadoras. Que não sejam só iniciativas pessoais. Algumas coisas nasceram de uma iniciativa pessoal, mas elas só continuarão se forem abraçadas por uma fraternidade, e com a própria entidade. São desafios que nós temos e, ao mesmo tempo, conquistas. Temos uma herança bonita na evangelização, em caminhos formativos, temos frades que contribuíram a vários âmbitos das ciências, da cultura, comissões de estudiosos e presença na Igreja em serviços diversos. Tudo isso é a herança que temos e que precisa encontrar caminhos para este tempo, com respostas atuais. Temos lugares em que a presença é perseguida, irmãos que passam dificuldades, risco de vida, de saúde, seja em áreas de missão ou com muita violência. Recentemente acompanhamos a situação dos frades na Ucrânia, no Sudão do Sul, em lugares que somos minoria cristã e com riscos. Diria, assim, temos a bela herança e presenças significativas, mas temos o dever de continuar tornando bela, para que se possa oferecer às novas gerações lugares com significado para o nosso tempo. Todo o caminho de sinodalidade, provocado pelo Papa Francisco e que a Ordem também abraçou, vai promovendo a busca por respostas para o nosso presente e futuro.

Site Franciscanos – A diminuição numérica preocupa a Ordem? 

Frei César – É uma preocupação sim em muitos lugares. Podemos citar a bela contribuição que os frades da Inglaterra deram, um Guilherme de Ockham e outros tantos pensadores franciscanos da França, Alemanha e Holanda. O impulso missionário que províncias desses países deram para a Ordem. Hoje vemos uma diminuição acentuada e envelhecimento. Temos que pensar: que atenção dar a essa realidade? Os frades que ali vivem têm essa consciência e se preparam para o que virá. Ao mesmo tempo, busca-se nesses lugares outros tipos de presença, entre refugiados e imigrantes, nas periferias, deixando conventos tradicionais e históricos. Existe o “Projeto Londres”, que se busca também na França, iniciativas de novas presenças que vão sendo repostas à situação da diminuição. Queremos ainda continuar respondendo nesses lugares. Mas a mesma realidade vai se dando em outros Continentes com menor tempo de história, como na América Latina e América do Norte. Vem acontecendo uma diminuição rápida e em pouco tempo. É um desafio maior para redescobrirmos a nossa presença e o quanto ela é significativa. Nas mais diversas análises, vemos que o carisma franciscano é atual, é muito buscado, é um projeto de Igreja hoje no Pontificado do Papa Francisco. Como participantes desse carisma, da herança de São Francisco, precisamos relançar a nossa proposta, a nossa forma de vida hoje.

Site Franciscanos – Como é estar perto do Papa Francisco, que se inspirou em São Francisco e hoje inspira a Ordem dos Frades Menores? 

Frei César – O Papa foi muito feliz e provocativo na mensagem que mandou ao Capítulo geral, com palavras inspiradoras e de grande conhecimento da Ordem. E confirmamos isso quando estivemos com ele no início do ano passado, ao levar os resultados do Capítulo e buscar suas indicações para o nosso serviço à Ordem. Ele nos surpreendeu com o quanto conhece da Ordem e falou coisas pertinentes, algumas já citei aqui. Ele é uma contínua inspiração na forma como vai pensando a Igreja como um todo. Ele nos leva a levantar os olhos para além da própria Ordem, a pensar como Igreja, como humanidade. Provoca-nos a quebrar fronteiras. Esse foi um grande aprendizado.

Site Franciscanos – O que significa para a Ordem e para os franciscanos celebrar o VIII Centenário? 

Frei César – Os Centenários já foram tema do Capítulo e depois houve um encontro com os Ministros gerais da Família Franciscana e se tomou a decisão de celebrar um único Centenário e de celebrar como Família Franciscana. Os representantes dos vários segmentos estiveram em Greccio no início deste ano para a abertura deste grande Centenário que vai até 2026. A perspectiva de celebrar como Família Franciscana é sempre nesse esforço de repropor a nossa identidade. Qual é o nosso carisma e como vivê-lo com intensidade no tempo de hoje com seus desafios. É a provocação de se reencantar para a nossa forma de vida, os irmãos e todos aqueles que participam de nossa missão no ideal proposto por São Francisco, mas que foi sendo desenvolvido em todos esses oito séculos.

Site Franciscanos – Fale um pouco do Ministro Geral Frei Massimo Fusarelli. Como é conviver com o nosso representante de São Francisco de Assis? 

Frei César – Ele é uma pessoa simples e impressionante ao mesmo tempo, porque vive o seu serviço com muita intensidade. É uma pessoa disciplinada e muito trabalhadora. Eu me impressiono com a quantidade de coisas que ele consegue fazer, atender e visitar. Ele procura visitar onde é mais necessário. Ao mesmo tempo vai atendendo as demandas da Vida Religiosa, da Família Franciscana, da Igreja e das realidades. Ele é muito chamado para entrevistas e para falar em outras Congregações. Quando vai aos frades, tem sempre uma mensagem simples, direta e muito prática, como faz no que escreve e produz. Impressiona pela capacidade de relação com as pessoas que trabalham com ele. Envolve a todos na animação e nas decisões, o que é muito bom. Eu já o conhecia do tempo que era Secretário geral de Formação, quando tive boa experiência com ele, o que me motivou um pouco mais a dizer o sim para estar neste serviço, mesmo com a dificuldade de deixar outros serviços em curso. A simplicidade na convivência e na relação, a dedicação às tarefas, com muita honestidade em tudo aquilo que ele precisa fazer, provoca-nos também.

Vivemos na Casa geral como uma Fraternidade, com 40 irmãos, com partilha e mútuo conhecimento. Formamos uma Fraternidade no próprio Definitório, animada através dele, em momentos próprios de oração, retiro, estudo, lazer e convivência entre nós. Posso dizer que é gratificante conviver com ele, com os irmãos do Definitório e da Fraternidade. Frei Massimo investe num modelo de animação realmente sinodal, aberto à participação ativa, começando pelo próprio Definitório geral em tudo, nas tomadas de decisões, com muita escuta, tanto nas situações boas quanto nas mais difíceis. Então, pessoalmente, tem sido exigente, mas bom e muito gratificante participar deste serviço.

Site Franciscanos – O que ele achou da visita que fez aqui na Província e em outras entidades da América Latina neste ano? 

Frei César – Eu sinto sempre que o Frei Massimo tem uma simpatia pelas realidades da América Latina. Talvez outros vão dizer que sintam isso em cada lugar por causa do seu jeito fraterno, simples e prático, de ir ao encontro, e sendo um observador atento. Ao acompanhá-lo nas diversas visitas, não precisei prepará-lo para as realidades e fui aprendendo isto. É importante deixá-lo ver as realidades e depois vamos conversando. Ele tem o senso de observação muito apurado e, ao mesmo tempo, muito aberto. Ele não faz dramas e moralismos falsos, não vem com uma eclesiologia fechada ou só europeia na vivência do carisma. Ele é aberto, conhece bastante a Ordem e gosta de ver as respostas que cada lugar vai dando. É uma presença com empatia. Adapta-se às realidades e faz as suas observações. Ele se alegra em ver que em nossa realidade há muita vida. A nossa Província, sobretudo, tem um caminho feito nas suas frentes de Evangelização, na formação já bastante consolidado e na qualidade vocacional dos frades e na sua história. Também na América Latina como um todo. Estamos nos preparando para celebrar os 500 anos da presença oficial da Ordem na América Latina, que começou lá no Porto Vera Cruz, no México, e depois foi descendo aos países da América espanhola. Da nossa parte, os portugueses. Vamos celebrar em 2024 como uma grande resposta evangelizadora e vocacional deste Continente, que é muito rica desde o início, participando ativamente da construção de mundo, da Igreja, na evangelização e na educação, uma presença que veio como a única presença da Igreja por tanto tempo. Os frades deram a sua contribuição, constituíram comunidades e seguiram adiante. Há hoje preocupação nesta realidade com a rápida diminuição: o que acontece e leva a isso? Há exaustão com a identificação clericalista e a necessidade de tornar mais evidente, de novo, a nossa identidade carismática e quanto ela pode ser significativa para o nosso tempo.

Um tema muito relevante na questão da diminuição, não só de ingressos, mas também de abandonos, é o da afetividade. Como viver a afetividade no nosso tempo. Não pode ser só uma proposta com base na moral que nega esta importante dimensão da pessoa, tão explorada ou exacerbada. O desafio de hoje é integrar as várias dimensões do afeto, da sexualidade e responder vocacionalmente aos votos, aos compromissos religiosos, e sobretudo tratar disso com abertura, com a linguagem que ajude a pessoa a se expressar e a ser valorizada, e valorizar também a fraternidade e os compromissos coletivos. Tudo isto em vista ao crescimento de cada um. O Secretariado para a Formação e os Estudos está preparando um material em vista de uma necessária reflexão posterior nas entidades.

Site Franciscanos – A era digital que vivemos ajuda ou deteriora a vida em fraternidade? 

Frei César – Vivemos uma época que é, muitas vezes, descrita com o termo VUCA [ é uma sigla em inglês, formada pela primeira letra das palavras: Volatility (volatilidade), Uncertainty (incerteza), Complexity (complexidade) e Ambiguity (ambiguidade). Esses quatro conceitos são usados para descrever o mundo em que vivemos atualmente, um mundo de mudanças rápidas e com diversas facetas], que é um mundo onde as coisas não são mais tão definidas, é mais volátil, fluido ou incerto. Nisto se culpa a era digital que leva a relações virtuais e não reais, ou que que leva as pessoas a se fecharem diante de uma janela aberta para o mundo inteiro. É uma oferta de tantas possibilidades, mas que, ao mesmo tempo, pode fechar as chances de crescimento na integração, relação e proximidade. Eu diria que a era digital está aí e nós estamos diretamente envolvidos nela. Ela favorece muitas coisas, o conhecimento, a partilha e até a criar mais proximidade. De longe pudemos acompanhar tantas coisas, como recentemente a Jornada Mundial da Juventude, ou encontros na Ásia, do outro lado do mundo. E é o mundo digital que nos possibilita tudo isso. Ela cria possibilidades. Hoje, no serviço de animação, temos encontros mais constantes, através de videoconferências. As informações chegam rápido e são coisas muito positivas. Com isso, penso que as coisas são positivas em si. O que temos de trabalhar é o como usamos as mesmas, como se pode responder mal ou como se pode ser afetado de forma que crie impedimentos para a relação e para o crescimento integral. Conforme um antigo princípio, os excessos são negativos. É importante encontrar um caminho de equilíbrio. Não vivemos só no mundo digital, mas também somos presença física e real. Uma coisa que me encanta no Papa Francisco, e tive o privilégio de encontrá-lo algumas vezes, é que em cada cumprimento, ele olha fixo nos olhos, ele acolhe você e diz uma palavra sobre a sua realidade. E ele cumprimenta tanta gente o tempo todo. Hoje vivemos relações em que as pessoas estão com o pensamento acelerada e, por isso, distraído. A pessoa está aqui, mas está pensando no que tem lá na frente. Então, o desafio é o de viver bem e com intensidade cada momento, com presença. Estar com uma pessoa é uma coisa importante e precisa do máximo da sua atenção. O mundo digital é uma riqueza que chegou, não adianta lutar contra ele, mas é preciso talvez estabelecer protocolos, regras e condutas. Recentemente no Brasil, no âmbito político, vivemos tantos conflitos e tantas falsas informações, em canais não oficiais e sem regras. Isso existe. Existem situações que levam à violência e a abusos. Por isso é necessário haver o necessário cuidado, principalmente com quem é mais vulnerável. Mas, o mundo digital em si é uma coisa positiva. Na evangelização, no período recente da pandemia, foi um instrumento fortíssimo de integração com as pessoas. As respostas foram criativas. É uma riqueza que existe, mas é ainda uma realidade nova e que precisa de certo regramento oficial e pessoal. E, neste mundo VUCA, com sua instabilidade e fluidez nas relações, talvez seja a oportunidade para o nosso testemunho. Como herdeiros de Francisco de Assis, irmão por excelência, estejamos inteiros em cada lugar, atentos no cuidado de cada pessoa, especialmente os pequenos e sofredores do nosso tempo, formando aí a grande fraternidade humana.


Publicado em franciscanos.org.br (por Moacir Beggo)

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