A Misericórdia na perspectiva franciscana

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Moacir Beggo

Vila Velha (ES) – Logo após o show do grupo Shalom, na noite desta sexta-feira (01/4), na Prainha, Frei Vitório Mazzuco aprofundou o tema da Misericórdia na perspectiva franciscana. Segundo o frade, Francisco de Assis tem uma frase que é chave neste tema: “O Senhor me conduziu aos leprosos e eu tive misericórdia com eles”.

“Na perspectiva franciscana, temos de partir desta frase. Para Francisco, a misericórdia não vai ser apenas celebrada, mas tem que ser vivida, praticada”, disse, lembrando que tem ouvido muito se falar em “festa da Misericórdia, celebração da misericórdia…”.

Frei Vitório destacou três pontos nesta palestra da misericórdia na perspectiva franciscana, lembrando que Francisco é o santo que aprendeu a sentir: “Ele vai sentir que a luz tem mais direito do que todas as trevas. Nós vimos aqui na apresentação do grupo Shalom o reerguimento da vida. É preciso reconstruir a casa da existência. Que casa é essa? A casa do coração, da interioridade, da sensibilidade, da intimidade, a casa do amor, a casa dos maiores afetos, a casa que não separa espírito e afeto, a casa da minha interioridade. É preciso reconstruir a casa da virtuosidade e todos os valores inspirados nessa grande virtude que é a virtude de Deus e que todo o Antigo Testamento proclama que a identidade do Senhor é a misericórdia. É preciso reconstruir todas as virtudes do cuidado. Esse é o sentimento que move em Francisco o caminho da misericórdia. Ele é o santo do sentir, que nos ensina a pensar, não só pensar, mas abraçar a palavra do Senhor, como uma palavra encarnada, a palavra verdadeira, que entra em nossa vida. E depois ele vai agir”, disse.

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Três aspectos:

1 – A misericórdia como conversão.

Não podemos esquecer que Francisco fez sempre um caminho da conversão. Dividir generosamente o tempo, bens, esmolas, moedas, pedaços de roupas, faz parte de gestos penitenciais de eliminação de excessos. Precisa-se descobrir o que se tem demais e ir se desfazendo aos poucos. Conversão não é castigo, mas caminho de transformação através do despojamento. Passar para uma vida que leve às sendas do Evangelho não se dá sem renúncias.

vitorio2A conversão interior comporta mudança de lugar. Se eu mudo de lugar, vejo onde estão os apelos da vida. Eu vou perceber onde estão os sofrimentos. Tem muita gente que muda de mentalidade, mas não muda de lugar. Como converter-se sem dar o primeiro passo?! Por isso, uma grande beleza desta Festa da Penha é a peregrinação. A dinâmica da vida: tudo começa com um passo. Lá no alto santuário, peregrinos e peregrinas vão fazer este caminho que vem desde a tradição do Antigo Testamento. Tudo começa com um passo. É a mística de Santiago de Compostela.

É preciso dar um passo. Por isso, este lugar, este convento acolhe a dinâmica da existência de tantas pessoas que vêm para a romaria dos homens, das mulheres, das pastorais etc. Isso significa o senso de pertença com a vida, com a Igreja, com a comunidade, com o coração, com a presença.

Uma romaria carregada de piedade popular, de prece constante, de silêncio contemplativo. A romaria faz parte da conversão. O verdadeiro convertido é aquele que faz o caminho penitencial. E vou insistir: penitência não é castigo. Mas um caminho de transformação, que passa pelos caminhos do Evangelho, pelos caminhos do amor.

Mas é o caminho feito pela grande virtude do Deus do Antigo Testamento. É o Deus misericordioso, um Deus que está atento ao sofrimento do seu povo.

  1. A misericórdia como penitência

Eu queria repetir o que disse: penitência não é castigo. É um caminho de eliminação de excessos. O penitente é aquele que pergunta a cada dia: o que está exagerado em mim? Há excessos de apego, de vaidades, de violência, de agressividade, de egoísmo?

Nunca se sentir saciado na busca de Deus. Essa é a verdadeira penitência. Francisco na busca de Deus, busca inspiração no Salmo 41, no salmo 12 e no salmo 67.

  1. A palavra misericórdia

A palavra é um grande encontro do que foi dito aqui na apresentação do grupo Shalon: o coração é a centralidade da existência. O órgão do nosso conhecimento não é o intelecto, mas o coração. O que passa pelo nosso coração, toma conta da vida, toma conta da existência, toma conta da nossa história, dos nossos sonhos, do nosso interior, das nossas palavras, dos nossos projetos.

A misericórdia é a ação do coração de Deus que olha com olhos solidários, com clemência, graça, compaixão, cuidado e ternura. O mísero (miseri, do latim ) evoca o coração (cor, cordis) sem cessar. A misericórdia é um clamor contínuo, todos os dias.

O afeto encontrado e provocado, tem que ser transformado em atos. Por isso São Francisco diz: “Eu fiz misericórdia com eles. Eu não tive dó deles”.

Nós estamos nesta celebração da Festa da Mãe da Penha, a Porta da Misericórdia. Não se esqueçam, Deus tudo podia, tudo pode. Tudo ele queria, tudo ele quer. A sua imensa vontade é capaz de tudo, mas uma coisa ele não quis: ser pai de si mesmo. Ele arrumou uma mãe, quis ter uma mãe, a mãe divina. As romarias que vão chegar, os passos do peregrino, como conversão, mudança de lugar, como penitência, com fome e sede de Deus, com um coração pulsante vão caminhar em direção a este santuário da montanha, o lugar do transcendente, esse lugar de encontro entre matéria e espírito. A montanha é o lugar onde elevamos o nível de nossa existência.

Nós chegamos ao coração de Deus pelo coração da Mãe. Maria tem a dimensão afetiva de todos os nossos gestos. Nós aprendemos com Francisco, nesta noite, que é preciso sermos conduzidos pela força do Senhor para sentir que o outro tem necessidade. As necessidades do outro são os desejos de Deus.  Maria é o desejo de Deus de entrar na história.

 

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