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Eis o tempo de conversão!

Reflexão

Por Frei Alberto Eckel Junior

Abrindo o Ciclo Pascal, a Quaresma é um tempo de graça na vida da Igreja. É o tempo favorável de voltar-se para Aquele que venceu o pecado e a morte mediante sua entrega incondicional e solidária na cruz. A Sacrosanctum Concilium lembra que o tempo quaresmal visa “preparar o fiéis para a celebração do mistério pascal, ouvindo com mais frequência a palavra de Deus e entregando-se à oração com mais insistência” (SC 109).

Historicamente, “a Quaresma é o resultado de um longo processo de sedimentação de três itinerários litúrgico-sacramentais: a preparação imediata dos catecúmenos para os sacramentos da iniciação; a penitência pública; e a participação da comunidade cristã nos dois anteriores como preparação para a Páscoa” (LÓPEZ MARTIN, J, 2006, p. 358). Com o passar dos anos, com o enfraquecimento do catecumenato e com o desaparecimento da penitência pública, foi acentuado na Quaresma o caráter penitencial e ascético.

Com o movimento litúrgico e a volta às fontes proposta pelo Concílio Vaticano II, resgatou-se o caráter batismal e a dimensão comunitária da penitência. Neste sentido, a espiritualidade da Quaresma mudou. Não somente mais como um momento devocional para com a Paixão do Senhor, a Quaresma é o tempo de preparação mais intensa para aqueles que serão batizados na Vigília Pascal e é o tempo de conversão de toda a comunidade eclesial, nascida das águas batismais, ao Evangelho e ao Reino de Deus.

A expressão bíblica que acompanha a imposição das cinzas “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) mostra aos fiéis a dimensão de conversão permanente ao Evangelho através do cultivo dos valores do Reino. É a frase que, segundo o evangelista Marcos, denota o início do ministério público de Jesus na Galileia. Assim, a penitência que marca a Quaresma não é simplesmente um sofrimento ou ascese, mas é, sobretudo, uma disposição de se abrir ao Evangelho e acolher o Reino de Deus como valor essencial na própria vida e na vida da Igreja.

Na mesma linha, a oração de bênção das cinzas é dirigida não propriamente às cinzas, mas aos fiéis que vão recebê-las, a fim de que “prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar de coração purificado o mistério pascal”. Deste modo, é o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus que ilumina toda a caminhada quaresmal. Tal como o Povo de Deus atravessou o deserto rumo à terra prometida, a Igreja, que nasce e participa do mistério pascal de Cristo através do Batismo, é convidada a viver a Quaresma como um momento oportuno de voltar à sua missão e essência, reconhecendo suas fragilidades e infidelidades em meio à caminhada pascal rumo à Jerusalém celeste.

A Liturgia da Palavra da 4ª feira de Cinzas propõe aos fiéis os exercícios da oração, do jejum e da esmola como meios eficientes de se alcançar a consciência do pecado e da necessidade de converter-se ao Senhor e ao seu projeto de vida. São, pois, exercícios que, em última análise, reportam às fragilidades impostas pelo pecado e também à infinita misericórdia de Deus. Clemente I, papa do primeiro século, na sua Carta aos Coríntios, assim exorta a comunidade: “Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem a morte”. De fato, diz o Senhor: “Não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta” (Ez 33,11) e tenha vida em abundância.

 

Referências

CONSTITUIÇÃO SACROSANCTUM CONCILIUM. In: Documentos do Concílio ecumênico Vaticano II (1962-1965). Paulus: São Paulo, 2001.

CLEMENTE I, PAPA. Carta aos Coríntios: fazei penitência. In: Liturgia das Horas segundo o rito romano: tempo da Quaresma, Tríduo Pascal e tempo da Páscoa. Petrópolis, São Paulo: Vozes, Paulinas et al, 2000. v. 2, p.42-43.

LÓPEZ MARTIN, Julián. A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. São Paulo: Paulinas, 2006.