Formação

Arrebatado pelo Espírito

A vida de Francisco de Assis apresenta a particularidade muito evidente de nela se poderem discernir certos momentos-chave: um homem sentindo-se num ápice apanhado, arrebatado por outrem, e imediatamente desviado em direção diferente, como que sorvido por um tornado ou abrasado por um incêndio … Observemos estes arrebatamentos ocorridos sempre por ação do Espírito Santo.

Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a «auto-estrada» que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa «auto-estrada» dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).

Os seus primeiros biógrafos, e em particular S. Boaventura, gostam de salientar ação do Espírito do Senhor naquele que consideram como «o anjo do sexto selo» de que fala o Apocalipse, “esse selo impresso em sua própria carne não por qualquer força natural nem por processo mecânico, mas pelo poder admirável do Espírito de Deus vivo» (LM, prólogo). Não se esqueça que o século XIII correspondia à «era do Espírito», segundo as especulações milenaristas inspiradas em Joaquim de Flora, e que seduziram boa parte da cristandade.

Vivendo nós hoje também em tempo de renovação no Espírito, renovação que sobretudo a partir do Concílio Vaticano II vem florescendo em várias formas, o exemplo de Francisco poderá mostrar-nos como deixar atuar em nós o Espírito do Senhor. Para isso vamos analisar, embora não exaustivamente, algumas grandes efusões do Espírito em Francisco, que fizeram desse santo da Idade Média um homem espiritual, fiel discípulo de Cristo.

O IRMÃO SEGUNDO O ESPÍRITO

A designação de afetuosa amizade com que mais vulgarmente apelidamos esse homem de outros tempos, mas tão próximo de nós, é a de «Irmão Francisco”. Um qualificativo bem apropriado, pois o Espírito fez dele um irmão de todos os homens
e até de todas as criaturas.

A aventura começou pelo encontro com leprosos, o beijo ao leproso, o serviço dos leprosos, como ele próprio declara no princípio do Testamento: «Foi assim que o Senhor me concedeu, a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência: Quando eu ainda vivia em pecados, era para mim insuportável ver leprosos. Mas o próprio Senhor me conduziu ao meio deles e comecei então a exercer misericórdia com eles. E ao afastar-me deles já se transformara para mim em doçura de alma e de corpo aquilo que antes me parecia tão amargo. Depois dessa experiência pouco esperei para dizer adeus ao mundo (T 1.2).

Arrebatado pelo Espírito do Senhor, Francisco faz a experiência da parábola evangélica do bom samaritano (Lc 10,29-36) e ultrapassa assim a barreira que a comuna de Assis levantara para separar as pessoas que gozavam dos direitos e privilégios de cidadania daquelas outras pessoas banidas da sociedade, expulsas para fora das povoações, vítimas da repulsa e quando muito objeto de piedade. Ao decidir-se a assumir a desventura dos leprosos, transformou-se como em irmão deles. E a partir dessa primeira experiência vai-se tomando cada vez mais irmão dos pequeninos, dos humildes, dos abandonados, dos excluídos por motivo de má conduta, de doença, ou até por injustiça social: entre os irmãos há de mostrar sempre uma ternura particular para com os que sofrem no corpo, no espírito ou no coração. Penetra assim nas bem-aventuranças dos pobres, dos que choram, dos mansos, dos misericordiosos: uma obra que só pode ser realizada pelo Espírito do Senhor.

Isso, nem mais nem menos, pretendia ele dizer ao afirmar que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformara em doçura de alma e de corpo. Tal doçura recorda sem dúvida aquela unção de que agora se sentia impregnado, como aconteceu com Jesus ao afirmar em Nazaré: «O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres (Lc 4,1). A partir daí, na esteira de Cristo que se fez nosso irmão, vai Francisco aprender a ser também doce e humilde – ou então cortês, como ele gosta de dizer – para com todos os seres humanos cuja dignidade respeita e defende. Progressivamente e à custa de duras conversões, o Espírito vai nele produzindo os «seus frutos»: «amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22).

Transformado assim pelo Espírito, torna-se um irmão tão universal e tão sedutor que chega a conquistar a fraternidade de aves e de peixes, de lobos e cordeiros, do fogo e da água, de todas as criaturas e até mesmo de inimigos como o Sultão do Egito. É como irmão de todos que se atreve a entoar o seu Cântico das Criaturas.

Oxalá a mesma doçura do Espírito do Senhor continue hoje a ajudar os irmãos, as irmãs e os amigos de Francisco de Assis a considerarem-se verdadeiramente irmãos, segundo o Espírito, de todos os excluídos da nossa sociedade no mundo contemporâneo.

PELO FOGO DO ESPÍRITO

«O poder incendiário do Espírito de Cristo abrasava-o por completo”, observa Boaventura (Lm 2,2). Verifica-se isso especialmente em dois acontecimentos que lhe alteraram profundamente a vida: o da Porciúncula e o do Alverne.

O mensageiro da paz

Numa manhã de Fevereiro de 1208 Francisco ouviu na Missa o trecho do Evangelho onde se conta como Jesus enviou os discípulos a pregar e lhes indicou a maneira evangélica de viver. Celano salienta que no fim da Missa ele foi pedir ao sacerdote que lhe explicasse melhor essa passagem. E então, «exultando de alegria no Espírito Santo, exclamou: ‘É exatamente isso o que eu pretendo e procuro, e do fundo do coração anseio por realizar’” (1C 22). Boaventura comenta: «Ao escutar atentamente estas palavras, foi tal a violência com que o Espírito de Cristo o sensibilizou, que mudou de vida por completo … (Lm 2,2) Isso constituiu para Francisco como uma Anunciação ou um Pentecostes. E logo se lançou na aventura da missão que teimará em seguir até à morte juntamente com os companheiros que se lhe vão associar.

Nessa passagem evangélica há uma palavra que especialmente o sensibilizou, segundo ele mesmo confidencia no Testamento: «Revelou-me o Senhor que devíamos saudar-nos dizendo: ‘O Senhor te dê a paz’” (T22). Isso virá a fazer dele, com a força do Espírito, o mensageiro da paz de Deus.

É exatamente sob essa figura de mensageiro da Paz que ele hoje é mais conhecido e invocado, como atestam o sucesso da Oração pela Paz, que lhe é atribu1da, e até o encontro ecumênico dos chefes religiosos em Assis, convocado e presidido pelo papa João Paulo II em Outubro de 1986. Com a veia profética dum João Batista, também ele faz aos quatro ventos um apelo a todos à conversão, à reconciliação com Deus e com os irmãos, e mesmo com os inimigos: expulsa de Arezzo os demônios da violência; leva adversários a assinarem tratados de paz; reconcilia em Assis o bispo com o podestade. E à sua fraternidade ainda embrionária confia a mesma missão: «Ide, caríssimos, e anunciai aos homens a paz e pregai-lhe a conversão que leva ao perdão dos pecados» (1C 24).

O recente e histórico acontecimento de Assis mostra como o Espírito do Senhor continua a pressionar a Família franciscana a que se empenhe com coragem no serviçu da paz, pela oração e pela promoção da justiça e dos direitos do homem.

Francisco sonha mesmo com levar a paz para além das fronteiras da cristandade do seu tempo. Por inspiração divina, ou seja, impelido pelo Espírito, atreve-se a fazer uma tentativa verdadeiramente pasmosa para a época: num gesto de cortesia, vai encontrar-se com o Sultão do Egito, considerado, e não sem motivo, o inimigo número um dos cristãos. Uma pregação deste gênero, bem como outros empreendimentos de paz, acaretam-lhe por vez dissabores e hostilidades: mas ele tudo suporta com alegria para seguir mais de perto os passos do seu amado Senhor, na esperança de poder acompanhá-lo até ao martírio. Na impossibilidade de atingir essa meta, acolhe com alegria as humilhações e um certo desprezo que lhe acarreta até mesmo por parte de alguns irmãos, a sua intransigente fidelidade em viver o Evangelho. A parábola da Perfeita Alegria, relatada na  “I Fioretti” no capitulo VIII, representa a tradução maravilhosa da experiência de quem sabe sofrer perseguição pela justiça por amor de Cristo. Para Francisco, paz e alegria são frutos do Espírito.

A transfiguração em Cristo

Segundo S. Boaventura, Francisco foi um homem «devorado por um incêndio de amor”– expressão que se tomará clássica na linguagem espiritual franciscana. Ele arde em amor «seráfico», ou seja, à semelhança dos Serafins, que são como tochas a arder diante do trono de Deus. O fogo do Espírito irá se transfigurando em Cristo até à total configuração com o Crucificado no Alverne. Esse amor seráfico parece ter nascido quando da oração de Francisco diante do crucifixo de S. Damião: «Desde essa altura enraizou-se-lhe na alma a compaixão pelo Crucificado; e podemos conjeturar que desde então lhe ficaram profundamente gravados na alma os estigmas da Paixão antes de lhe serem impressos na carne (2C 11).

Quanto ao itinerário da transfiguração de Francisco em Cristo, muitos se têm dedicado a descrevê-lo. Vamos apenas indicar a chave de leitura por ele mesmo fornecida na oração que finaliza a Carta a toda a Ordem. Depois de ter implorado o dom de Deus, prossegue dizendo: « … Interiormente purificados, interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo … » (CO 51). S. Boaventura chega mesmo a concretizar as etapas e as condições do «Itinerário da alma para Deus»; mas para Francisco o caso parece mais simples: foi o fogo do Espírito que o animou a seguir o caminho de Jesus.

AO SOPRO DO ESPÍRITO

Ao sentir aproximar-se o fim da vida terrena, Frei Francisco afirma com clareza que o movimento evangélico inaugurado em Assis por ele e pelos irmãos e agora confiado à Igreja, só terá futuro pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123). Sem sombra de dúvida, Francisco toma aqui posição ao lado dos irmãos mais simples, como gostava de lhes chamar, em oposição aos clérigos e a alguns ministros que pretendiam instituir uma Ordem Religiosa capaz de rivalizar com outras de grande renome. E, como de passagem, exprime a convicção profunda e manifesta o desejo ardente de que o Espírito Santo seja de alguma forma o Paráclito, o Advogado, ou, como ele diz, o verdadeiro ministro geral da sua fraternidade (Cf Jo 14, 16-26).

A mesma convição continuará sempre a animar os movimentos franciscanos no decurso da sua longa história. Desde os primórdios, os biógrafos empenham-se em descrever um S. Francisco incessantemente inspirado pelo Espírito, tanto nas iniciativas pessoais como na redação das Regras. Já nessa época os «zelantes» da Regra, numa espécie de namoro com as utopias joaquimistas, acentuarão o aspecto espiritual da vida franciscana, a ponto de serem mesmo chamados «os Espirituais», para se distinguirem dos irmãos simplesmente «observantes» da mesma Regra. Humberto Eco utilizou a seu modo essa controvérsia medieval no célebre romance “O Nome da Rosa”, evocando uma das principais figuras dos «zelantes», Hubertino de Casal, também retratado no filme de Jean-Claude Annaud. A questão centrava-se exatamente sobre a observância da Regra e sobre se o Testamento de Francisco deveria ou não ter valor obrigatório. À medida que ia ganhando terreno uma interpretação cada vez mais jurídica desses textos-base, os Espirituais defendem a intuição – eles chamam-lhe a intenção – de Francisco: a observância espiritual da Regra, interpretada segundo o Testamento e outros escritos e a própria vida do pobrezinho, «por quem o Senhor se dignou falar».

Essa tradição «espiritual», acalmada com o rodar do tempo e desembaraçada de compromissos políticos, vai inspirar numerosas Reformas (diríamos mesmo Rebentos) que aparecem do século XIV ao século XVI. Algumas ainda subsistem e integram a chamada Primeira Ordem Franciscana: observantes, capuchinhos, recoletos … O mesmo dinamismo espiritual suscita de forma idêntica rebentos na Segunda Ordem, a das Clarissas, por exemplo a reforma de Santa Coleta, provoca o pulular de numerosas congregações franciscanas, bem como um reflorescimento da Ordem Terceira e dum laicado evangélico franciscano.

Nos nossos dias, a história espiritual da Família Franciscana procura acompanhar a renovação de toda a Igreja, ao sopro do Espírito.

Do Livro “A Espiritualidade de Francisco de Assis”, Editorial Franciscana – Braga – Portugal

Fonte: Província Franciscana | www.franciscanos